EU SOU, TIMÓTEO

Eu sou Timóteo! Nasci e fui criado na cidade de Listra. Essa cidade ficava na província da Galácia. Esta plaga era formada pelas cidades de Antioquia da Pisídia, Icônio, Derbe e Listra. Minha mãe, Eunice, era uma judia crente, mas meu pai era grego. Lá em casa vivia-se um misto entre o Cristo e a filosofia grega. Entre a crença na ressurreição e a morte como um fim em si mesmo. Mas, mamãe me ensinou no caminho do Senhor. Mamãe não apenas apontou o caminho, nem mesmo disse que ele era o único e reto caminho. Ela esteve comigo no caminho. Isso fez muita diferença para mim. As ações de mamãe foram avalistas de suas palavras. Suas ações não refutavam suas palavras. Ela falava e fazia. Passamos, muitas vezes, pelas mesmas angústias e crises que qualquer outro crente sincero enfrenta, na jornada rumo ao céu. Tornei-me um homem que amava o Senhor de todo o coração e alma. Desde criança fui nutrido com o leite da piedade. Ah! Não posso deixar de mencionar a minha vovó Lóide. Vovó, a mãe de minha mãe, era uma mulher piedosa. Aprendi muito com vovó. Eu não ia para casa de minha avó Lóide, somente para comer bolinhos-de-chuva, mas para assentar-me e sorver cada gota de seu ensino acerca das Escrituras. Minha avó era uma senhora versada na Bíblia. Minha mãe era espelho de minha avó. Porque minha avó era piedosa, minha mãe também o era. 


Quando cheguei a ser jovem, Paulo, o grande bandeirante do cristianismo, esteve em minha cidade, Listra, na província da Galácia. Era a sua primeira viagem missionária sob a regência de Barnabé. Ah! Paulo era um homem que outrora perseguia os crentes com truculência desumana, matava com requinte de crueldade. Forçava os santos a blasfemarem, encerrava a muitos, homens e mulheres, na prisão. Mas a sua vida e história ganharam um novo sentido. Ele ainda respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, quando dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém. Colocou-se no encalço desta missão. Era uma missão  repugnante aos olhos de Jesus.  Mas durante sua viagem rumo a Damasco, uma luz aurifulgente apareceu-lhe, era o próprio Jesus de Nazaré,  da Galileia. Ali, no caminho de Damasco, Paulo viu uma luz, caiu no chão e ouviu uma voz. Paulo, depois contou-me que ele vinha resistindo ao aguilhão como um toro rebelde e selvagem. Não teve como mais resistir às verdades dos fatos, ele não estava perseguindo os crentes, mas sim, o próprio Cristo. Perseguir os crentes é o mesmo que perseguir a Cristo. Colocar-se no encalço da Noiva é perseguir o Noivo. Ali, Jesus decidiu-se por Paulo. Ali, no caminho da conversão, Paulo rendeu-se por inteiro aos pés de Cristo. Ele ficou cego, mas os olhos de sua alma foram abertos. 


Paulo, ficou um bom tempo no anonimato, mas depois de regressar deste discipulado intenso com Jesus de, aproximadamente, dezessete anos, Barnabé e Paulo, foram levantados para fazer a primeira viagem transcultural da igreja primitiva. Foi nesta primeira viagem missionária de Barnabé e Paulo, que eu fui convertido. Foi neste primeiro encontro que o edifício foi erguido, a saber Cristo Jesus, em minha vida, pois minha mãe já havia começado. Paulo foi o responsável por lançar a lona na tenda, já erguida por mamãe, em minha vida. 


Fiquei sabendo pela boca de Paulo que houve um concílio em Jerusalém. O assunto principal era saber como os gentios seriam salvos. A estaca foi lançada, dizendo que seria somente mediante a fé em Cristo Jesus que os gentios seriam salvos. Logo após esse assunto importantíssimo ter sido encerrado. Paulo chamou Barnabé para voltar a visitar os irmãos por todas as cidades nas quais eles já haviam anunciado a palavra do Senhor, para saberem como passavam. Barnabé queria levar também a João Marcos, mas Paulo não achava justo levarem com eles aquele que se afastou deles desde a Panfília. Eles tiveram uma discussão tão forte, que  se separaram. Barnabé levou João Marcos consigo e embarcou para a ilha de Chipre, sua terra natal. Paulo escolheu Silas e seguiu viagem rumo à província da Síria e à região da Cilícia, dando força às igrejas.  


Lembro-me de ver meu amado mestre, Paulo, ser apedrejado, e ter sido dado como morto em sua primeira viagem missionária. Quando nos encontramos pela primeira vez. Para mim, tão jovem, aquelas cenas eram atormentadoras: ver Paulo todo ensanguentado, sofrendo dor atroz. Mas eu estava resoluto a caminhar por estas veredas cheias de espinhos. Mesmo porque a vida cristã não é um parque de diversões, nem uma colônia de férias, mas um campo de batalha. Eu sabia que quem entra nesta vereda pode não encontrar flores pelos caminhos, mas tinha convicção de uma chegada certa. Não importa como começa, mas sim como se termina a grande jornada rumo ao céu. 


Paulo chegou também a Derbe e a Listra em sua segunda viagem missionária. Ali nos reencontramos, pela segunda vez. Naqueles tempos eu já era discípulo de Cristo. Paulo queria que eu fosse com ele nesta empreitada da segunda viagem missionária, e como meu pai era grego e minha mãe uma judia piedosa, ele circuncidou-me por causa dos judeus daqueles lugares. Então, depois de ter feito a circuncisão em mim, eu comecei a segui-lo. Mamãe e vovó muito alegram-se por eu ter sido o escolhido para o ministério! Paulo era um ilustre homem de Deus. Era um pai na fé, para mim, e eu, seu amado filho na fé. Foi uma aventura e tanto estar com Paulo nessas viagens missionárias. 


Paulo sonhava chegar em Roma e depois ser enviado pelos crentes dali à Espanha. Na verdade, esse não era o sonho apenas de Paulo, mas também a vontade de Cristo. Certa feita o Senhor pôs-se ao lado dele e disse: Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma. Ah! Paulo me disse que esse lampejo de esperança foi como uma dinamite explodindo em seu peito. 


Meu pai na fé e amigo em todo momento, Paulo, foi preso em Jerusalém e acusado em Cesareia. Foi acusado falsamente de ter levado um gentio ao templo judaico, isso era terrível para um judeu. Levado a Cesareia, ficou preso por dois anos ali, esperando a decisão de seu julgamento. Félix foi substituído por Festo. Festo queria agradar os judeus, e deixou Paulo na prisão, porém os judeus nutriam ainda o desejo de matar Paulo. Paulo apela para ser julgado diante de César, em Roma.


Em seu caminho à Roma, Paulo sonhava chegar ali como um missionário itinerante e depois ser enviado para a Espanha. Não foi isso que ocorreu. Sofreu um naufrágio. O alimento foi lançado no mar, a embarcação foi despedaçada, mas nenhuma vida perdeu-se. Chegaram a uma ilha chamada Malta. Paulo curou muitos enfermos naquela plaga, iniciando pelo pai do prefeito daquela região. Nesta prisão em Roma, Paulo fica cerca de dois anos, numa prisão domiciliar. Aproveitou o ensejo para evangelizar a guarda pretoriana, a tropa de elite do imperador romano. 


Depois de sair de sua segunda prisão, Paulo e eu fomos para uma quarta viagem missionária. Ele me deixou em Éfeso e o meu amigo de ministério, Tito, na ilha de Creta. Ah! Como foi difícil pastorear aquela enorme igreja de Éfeso. Essa cidade no pretérito, foi palco de um dos grandes avivamentos. Os idólatras e feiticeiros converteram-se e os místicos, queimavam os seus livros mágicos na fogueira.  Para mim, sendo tão jovem foi um grande desafio estar à frente daquela igreja, a Igreja de Éfeso.  


Eu tinha algumas desvantagens pessoais. Era jovem, doente e tímido. Pasme! Eu até me envergonhei do meu mestre, Paulo. Estive preso também, mas logo fui posto em liberdade. Paulo teve que me admoestar para eu reavivar o dom que havia em mim. Às vezes precisamos de pessoas para nos fazer lembrar que existe dom em nós. Foi isso que Paulo fez. Ele me deu um puxão de orelha, e eu fui encorajado. 


Ser jovem é muito bom, é a melhor fase da vida. Mas ao mesmo tempo temos muitos desafios e perigos. As vaidades, fornicação, drogas, paixões e dinheiro, são algumas coisas que enfrentamos quando passamos por essa faixa etária.  O poder, o sexo e o dinheiro são uma tríade maligna quando fora dos propósitos de Deus. Mas, mesmo eu, sendo jovem, doente e tímido, sabia que as Escrituras foram inspiradas por Deus e útil para o ensino, repreensão, correção, e educação na justiça.


No meu tempo, muitos jovens eram mais contraditórios em seus expedientes do que exemplos em seus caráter. Carecia, não somente de jovens com diplomas na mão, mas com seus nomes escritos no céu, no Livro dos livros. Eu reconheço por outro lado, que os jovens precisam influenciar os demais, quer nas cortes, nos palácios, nas faculdades, escolas, nos tribunais e sobretudo na família.


Exerci o pastorado na igreja de Éfeso por um bom tempo. No dia 17 de Julho de 64 d.C. Nero incendiou Roma com a justificativa de recriar uma Roma mais moderna em sua arquitetura. Paulo neste tempo, estava solto. Como ele era o grande líder do cristianismo, Nero colocou a culpa do incêndio nele. Estava deflagrada sua acusação, incendiário de Roma. Ele foi preso pela segunda vez. Desta vez ele não iria sair para uma viagem missionária, mas para uma viagem rumo ao céu. Ele me disse que aguardava a coroa da justiça. Disse ainda que tinha combatido o bom combate, completado a carreira e guardado a fé. Ah! Como ele foi exemplo para mim. 


Diante de acusações tão severas, ele continuou sereno. Como ele era cidadão romano, ele morreu degolado num cadafalso romano. Ah! Para mim foi uma dor profunda no peito perder meu amigo, companheiro, confidente e pai na fé. Quem seria meu conselheiro íntimo e pessoal doravante? Quem iria me admoestar diante daquela grande congregação de Éfeso?


Não hesitei, continuei. Era uma missão e tanto continuar sem Paulo. A intimidade com o Senhor não anula o relacionamento com os irmãos. Eu sabia que ele estava num lugar incomparavelmente melhor. Estava no gozo do nosso Senhor. Estava no céu. Na casa do Pai. No paraíso. Ah! Ele foi se encontrar com Cristo nos ares. Mas tive um lampejo de esperança, pensei: “Eu também irei para lá. Irei ver meu Senhor e meu amigo tão breve”. 


Não desanimei diante desta situação tão amarga. Jesus estava comigo. Ele nos prometeu dizendo que estaria conosco até a consumação deste século. Fiquei como pastor da igreja de Éfeso por um bom tempo. A perseguição contra os cristãos era cada vez mais acirrada, mas ao invés de os cristãos ficarem desanimados, as fileiras cresciam cada vez mais de adeptos ao Cristo. Aprendi com isso que a perseguição não paralisa a evangelização, a promove. O sangue dos mártires tornou-se adubo, as lágrimas, água para regar o solo tão seco da perseguição. 


A perseguição chegou também em meu encalço. Enquanto vivi, enfrentei o desafio de ser jovem, doente e tímido. Porque dei o meu melhor na juventude, pude viver a fase adulta de forma serena e tranquila. A morte chegou para mim também. O imperador Nerva, emitiu um mandato de matar-me. O mandato foi lavrado e promulgado. O alvo do mandato era eu, Timóteo. Morri como meu mestre, Paulo, serenamente, diante de tantas acusações severas. Paulo foi morto por ordem de Nero, e eu, por ordem de Nerva. 


Duas cartas foram escritas por Paulo, endereçadas a mim; as missivas de primeira e segunda Timóteo. O meu testemunho soa altissonante para todos os jovens, em todos os tempos e em todos os lugares. Que você seja um jovem resoluto a caminhar com Cristo. Amar Cristo. Glorificar Cristo e morrer com Cristo. Porque eu andei com Cristo, pude morrer com Ele. Fui para a Casa do Pai. Para o paraíso. Para a minha origem. Para onde nós iremos nos encontrar tão breve, para participar do sublime banquete do Cordeiro.


Gabriel Santos!


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